PARE DE FUMAR

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domingo, 23 de agosto de 2015

QUEM DISSE QUE EM PARIS NÃO TEM MORADOR DE RUA

Vivendo sob o céu de Paris

Imigração e crise aumentam presença de sem-teto nas ruas da capital francesa

POR 

Originário da Sardenha, na Itália, Jimie está há 41 anos na França, e dorme nos subterrâneos da linha 13 do metrô parisiense. - Fernando Eichenberg / O Globo

PARIS — Numa gelada manhã de final de novembro do ano passado, numa Paris já de ares natalinos em pleno inverno europeu, Pascal, 54 anos, assentado na laje fria da calçada na rua Odessa, no bairro Montparnasse, recebeu uma esmola de fazer acreditar na existência de Papai Noel: € 800 de uma só vez.
— O homem disse que havia ganhado na loteria, e deu essa bolada na minha mão. Em apenas quatro horas, havia juntado € 1.217 — conta ele, com inesquecível exatidão numérica, acomodado na mesma esquina afortunada, agora no agosto do verão parisiense.
Pascal não trabalha, mas cumpre com rigor o horário de sua jornada. Diariamente, se instala às 8h em seu imutável ponto de mendicância, de onde só sai no início da tarde. Mas nem todo dia é de surpresas natalinas. Naquela manhã, havia acumulado € 14 em moedas em seu copo de plástico. Por muitos anos — ele diz não lembrar quantos —, Pascal viveu na rua. Mas há alguns meses dorme todas as noites no albergue da associação Espace Solidarité Insertion, na avenida René Coty.
Um homem se aproxima e lhe pergunta se gosta de presunto, ao mesmo tempo lhe passando uma sacola de supermercado garnida de alimentos e suco de laranja. Uma mulher da vizinhança lhe cumprimenta e deposita uma moeda em seu copo. Mas ao avistar no interior algumas moedas de centavos, esbraveja: “Como alguém tem coragem de oferecer centavos como esmola?”. Calmamente, Pascal explica que o doador havia sido uma criança. “Ah bom, criança pode”, se desculpa a mulher despedindo-se, e contando que está atrasada para a sessão do cinema contíguo.
Nascido na região de Calais, Pascal desembarcou na capital francesa aos 16 anos. Chegou a trabalhar como pâtissier, mas sofreu um problema na mão e não conseguiu mais emprego.
— O que vou fazer? Como vou trabalhar? Eu era um bom pâtissier. Você tinha de ver minhas tortas. Hoje, com o que ganho aqui dá pra viver, sempre vem alguma coisinha, seja no inverno ou no verão. Mas no inverno é melhor — reconhece.
Pascal é um SDF, emblemática sigla correspondente a um crescente problema social na França: as pessoas Sem Domicílio Fixo. Os sem-teto passaram a integrar a paisagem da cidade diante da indiferença de parisienses e do espanto de turistas. O mais recente e minucioso estudo feito pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee, na sigla em francês), em conjunto com o Ateliê Parisense de Urbanismo (Apur), apontou, no período de dez anos a partir de 2001, um aumento de 84% de SDFs na capital francesa. Em 2012, havia 28.800 mil sem-teto adultos em Paris, número equivalente a 43% do total no país. A pesquisa revelou ainda que um terço deles possuía algum tipo de emprego, e que 56% eram estrangeiros. Como parte da política do município de ajuda aos sem-teto, Paris foi dividida em quatro setores, cada um deles monitorado por uma associação de caráter social: Emmaüs Solidarité (Norte), Aurore (Oeste), Aux Captifs la Libération (Leste) e Les Enfants du Canal (Sul).
Sentado na mureta em frente à entrada principal da estação ferroviária Gare Montparnasse, Jimie, 55 anos, expressava uma mistura de irritação e abatimento. Nos últimos dias, havia passado as noites nos subterrâneos da linha 13 do metrô parisiense.
— Eu durmo mal no metrô, meus olhos doem não sei por que, e estou doente — queixava-se.
Um colega seu da rua, em um momento de desatenção, deixou que furtassem a sacola com os seus documentos . Jimie estava enraivecido:
— Eu pedi para ele olhar para mim por apenas cinco minutos! E quando voltei alguém havia levado e ele não viu.
Originário da Sardenha, na Itália, Jimie está há 41 anos na França, mas quase nunca trabalhou, e atravessou os anos entre a rua, albergues públicos e alojamentos provisórios. Recentemente, conseguiu um quarto em um hotel barato, o qual acabou perdendo por falta de recursos para pagar, e agora depende do 115. Os três algarismos são a senha mágica para os SDFs que almejam pernoitar em algum abrigo. O número de telefone funciona 24h, e o serviço direciona os sem-teto para algum estabelecimento gerido pelo Estado ou por alguma associação que possua uma vaga disponível para aquela mesma noite. Mas obter um lugar muitas vezes se assemelha a uma travessia do deserto.
— Tento ligar quando consigo, mas está quase sempre ocupado, e quando alguém atende me diz que não há leitos — diz Jimie, desolado.
Cheik Sylla e Davide D'Adorante, funcionários da associação Aurore — em atividade desde 1871 no auxílio a pessoas em situação de precariedade e de exclusão social na França — procuram reconfortá-lo em sua ronda ao encontro dos sem teto. A missão de Cheik, originário do Senegal, e Davide, da Itália, é de principalmente ganhar a confiança dos SDFs e tentar ajudá-los na medida do possível em suas demandas.
 Não queremos impor nada. A iniciativa tem de partir deles. Mas tentamos lhes abrir caminhos e alternativas — explica Cheik.
Naquela manhã, ele e Davide deram a Jimie uma cartela mensal para que pudesse jantar gratuitamente em um dos sete restaurantes solidários da rede de estabelecimentos criada pelo Centro de Ação Social de Paris, gerido pela Subdireção de Solidariedade e de Luta Contra a Exclusão Social (SDSLE). Mas sua tentativa de lhe obter uma cama para aquela noite foi frustrada.
Na parte lateral da estação, na rua du Départ, entre a entrada da garagem do supermercado Monoprix e o bar-café l'Atlantique, Phillipe, 60 anos, pode ser avistado todos os dias pela manhã, sentado em uma banqueta alta, suas duas muletas encostadas na parede. Foi um SDF desde os primeiros dias de vida, nascido de um parto na rua, no 14° distrito da cidade. Nos últimos anos, dormiu muitas noites ali mesmo, protegido pelo muro na parte interna da garagem.
— Mas é preciso dormir com um olho bem aberto — alerta.
Sua história, verdadeira ou não, é digna de um filme. Phillipe conta que por dez anos integrou a unidade de paraquedistas das forças especiais do exército francês. Sua deficiência, diz, é consequência de uma bala recebida na perna durante uma operação no Afeganistão. Mais do que isso alega não poder revelar, por conta do “segredo de defesa nacional”. Fora do serviço militar, foi experimentar a vida em Londres, na companhia de um amigo, que o teria convencido depois a se aventurar em Nova York.
— Fomos juntos. Tínhamos US$ 3,5 mil cada um. Gastamos tudo lá praticamente em uma só noite. Conseguia algum dinheiro depois com uns trabalhos. Então conheci minha mulher, mas ela morreu no atentado na segunda Torre Gêmea, em 2001. Em 2004 retornei para a França, mas nunca me recuperei da perda dela.
Transeuntes que moram nos arredores lhe cumprimentam, perguntam como vai, e uma mulher lhe oferece alguns croissants embrulhados em papel. Segundo Phillipe, certa vez uma casal do prédio ao lado do local onde se instala todos os dias lhe deu a chave de casa para que ele cuidasse do gato do apartamento no período de férias.
— Eles confiaram em mim, e ainda me deixaram comida na geladeira por uma semana — conta, com orgulho.
Ele diz recolher entre € 140 e € 160 diários de esmolas. Quanto atinge esta soma, retorna mais cedo para o albergue onde atualmente está alojado.
— Estou bem no albergue. Quando cheguei lá, dividia um dormitório com mais sete SDFs. Agora mudei para um quarto em que somos quatro no total. Mas, por vezes, eu pago uma noite de hotel para poder lavar minha roupa e assistir aos jogos de rúgbi na TV.
No extremo oposto da estação, na rua de l'Arrivée, Lotz, 55, postado em uma das escadarias de acesso à Gare Montparnasse, cumpre um horário germânico em busca de alguma esmola: chega todos os dias às 8h20, e vai embora às 14h. Em sua cabeça, porta sempre um boné com as cores e o nome de algum país diferente. É seu hobby de colecionador. Nesta semana, estava com um de Portugal, depois de ter usado por alguns dias outro da Espanha. Alemão de nascimento, ele viajou em 1998 para a França, de onde nunca mais saiu. Por seis anos trabalhou como um empregado faz-tudo em um restaurante ali mesmo nas proximidades da estação, e depois passou para um outro vizinho, onde permaneceu por dois anos.
— Mas sempre trabalhei clandestinamente, nada declarado, eles não queriam contrato, então não tenho direito a nada. Por meses dormi na rua ali num esconderijo naquele edifício (indica o outro lado da rua). Ajeitava umas folhas de papelão, tinha um saco de dormir...
Hoje, Lotz desembolsa € 320 por um quarto alugado em uma habitação de propriedade da SNCF, a rede ferroviária francesa. E neste verão, seus amigos da companhia de trem conseguiram passagens de graça para que possa ir visitar suas duas filhas que moram na Alemanha. Para poder pagar o aluguel, ele tem atualmente um trabalho parcial como distribuidor de jornais.
 E as esmolas são para gastar com a vida — explica.
Na França desde 2007, onde vgeio estudar o idioma francês, a chinesa Wenjing Guo iniciou seu contato com a Aurore para realizar um estudo sociológico sobre as razões pelas quais SDFs recusam a ajuda social e por vezes preferem permanecer na rua, e a partir de 2012 passou a trabalhar de forma permanente como funcionária da associação.
— O SDF por vezes aceita a a ajuda social para sobreviver fisicamente, e a rejeita para sobreviver psicologicamente — diz Wenjing. — Aceitar, por um lado, é entrar em categorias oficiais estabelecidas pelo Estado, ser estigmatizado por um carimbo administrativo. Há varios elementos subjetivos que atuam. O SDF não quer ser oficalmente excluído socialmente e prefere menater esta "liberdade". È uma questão de legitimidade e ilegitimidade. O auxílio social implica com que entrem em uma burocracia oficial vista como algo ruim. Por isso é algo que depende muito de como evolui nossa relação com cada um deles, o diálogo estabelecido.
Wenjing testemunha in loco a precarização recrudescida pela crise dos últimos anos e o aumento constante do índice do desemprego, além do crescente núemro de imigrantes.
— Há uma pauperização da população em geral. O SDF não surge do nada, existe um processo que leva pessoas a uma situação extrema. Muitas delas estão perdendo suas moradias. E também somos levados a considerar cada vez mais a questão da imigração. Atendemos cada vez mais estrangeiros sem perspectiva de retorno a seus países. Isso alterou o nosso trabalho cotidiano. Um sem teto já é estigmatizado, e ainda mais sendo estrangeiro...
A maior quantidade de sem-tetos nas ruas na cidade é uma questão “complexa” para os parisienses, segundo sua avaliação:
— É uma presença que incomoda, porque nos lança uma imagem violenta de um mal da sociedade, e nos remete a nossa impotência. Alguns dizem que deve se encontrar uma solução, e outros só os querem fora de vista, se livrar do problema, o que impede uma reflexão mais global.
Moussa Djimera, originário da Mauritânia, está na França desde 1991, e começou a atuar em trabalhos sociais em 1995. Atualmente, coordena duas equipes de contato com sem-tetos nos setores leste e oeste da capital francesa. Ele diz já já ter presenciado “um pouco de tudo” em sua experiência pessoal, e ressalta o grande número de SDFs com problemas psíquicos e/ou de alcoolismo, o que dificulta o trabalho de reinserção.
— Um sem-teto se salvou graças a uma doença. No hospital, lhe disseram que poderia escolher entre continuar a viver ou continuar a beber e morrer. Estava com uns 35 anos. Aos poucos foi aceitando ajuda, um alojamento, achou um trabalho estável. Mas continuou a visitar seus ex-companheiros de rua na Gare de Lyon. Era a sua referência — conta.
Moussa alerta para um problema aque se acentua, e define as novas ondas de imigração como o fenômeno de “um vulcão que explode”, decorrente de um agravamento da pobreza em regiões do planeta e de guerras e conflitos políticos.                                    As pessoas fogem para salvar sua pele e também da miséria. Todo este quadro favorece os extremismos na Europa. Mas depois da tempestade vem a bonança. Eu espero pela bonança, mas é um combate diário — diz, sem perder o otimismo.
Num dos quartos do prédio dos fundos da associação Aurore, no número 72 da avenida Denfert Rochereau, Alain, 61 anos, se recupera há três meses de uma cirurgia. Ao lado de sua cama, está uma cadeira de rodas e a prótese de uma perna, do joelho até a extremidade, em pé sobre sua base. Na pequena mesa, distinguem-se apenas dois objetos: sua escova de dentes e um livro, “Dissolução”, de C.J. Sansom, uma intriga policial, política e religiosa na Inglaterra reformista de 1537. Aos 25 anos, Alain partiu do Togo, na África, para a França, e desde então a rua acabou sendo sua morada a maior parte do tempo. Durante uma década, se tornou um conhecido sem teto nos arredores da avenida de Versalhes, no chique 16° distrito de Paris. Na rua, acabou pegando um infecção, e teve a parte inferior da perna esquerda amputada. O hospital Georges Pompidou, onde foi atendido, acabou lhe oferecendo a prótese no valor de €1.800. Ele discute animadamente sobre tudo, da crise na Grécia aos atuais protestos dos agricultores franceses. Alain está satsifeito no albergue, não quer voltar a viver na rua. Deitado, se desculpa por recusar que seja fotografado:
— Não sabia que teria foto. Não me preparei, estou feio, desarrumado.

RESPOSTA: VIVA A FRANÇA


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